Como podem os ambientes virtuais e as plataformas digitais, potenciados pela IA evoluir de simples espaços tecnológicos para verdadeiros ecossistemas digitais de aprendizagem e conhecimento
Partindo da questão colocada pelo professor, e trazendo-a para o meu contexto prático enquanto gestora da plataforma Moodle na Instituição onde trabalho, reconheço que o maior desafio não está na tecnologia disponível, mas sim na forma como a tecnologia é (ou não é) apropriada pedagogicamente pelos formadores e formandos.
Aqui onde estou, a plataforma Moodle continua a ser utilizada sobretudo como repositório de conteúdos e isso leva-me a pensar que a transição para um verdadeiro ecossistema digital não exige, numa primeira fase, mais ferramentas, mas sim uma mudança na intencionalidade pedagógica. Tal como referem Garrison, D. R., Anderson, T. e Archer, W. (2000), a aprendizagem online ganha significado quando há articulação entre presença social, cognitiva e docente — algo que dificilmente acontece quando os ambientes digitais são usados apenas para disponibilizar materiais de estudo.
Parece-me que um primeiro passo passaria por introduzir formas simples de interação estruturada (por exemplo, fóruns orientados ou tarefas com feedback), evoluindo depois para práticas mais colaborativas, como construção conjunta de conteúdos ou avaliação entre pares. Esta progressão está alinhada com perspetivas socioconstrutivistas, nomeadamente com Vygotsky, L. S. (1978), que enfatiza o papel da interação na construção do conhecimento, e também com o modelo de e-moderation de Salmon, G. (2013), que destaca a importância de uma mediação pedagógica progressiva nos ambientes online.
Relativamente à personalização das aprendizagens, acredito que esta pode começar de forma relativamente simples, através de percursos diferenciados ou feedback mais individualizado, podendo posteriormente ser apoiada por abordagens como o Learning Analytics (Siemens, G. & Long, P., 2011) e, mais tarde, pela integração de Inteligência Artificial.
No entanto, aquilo que me parece mais crítico — e que sinto claramente no terreno — são as barreiras à utilização. A distância entre quem desenvolve as ferramentas e quem as usa pedagogicamente é muito grande. A formação disponível é, muitas vezes, insuficiente ou pouco contextualizada, e o auto didatismo não chega para ultrapassar estas dificuldades e tirar da tecnologia todo o seu potencial. Faz-me muito sentido a ideia de que a transformação só será possível se houver menos barreiras e mais facilitadores.
Esta questão é bem enquadrada por Koehler, M. J. e Mishra, P. (2009), quando referem que a integração eficaz da tecnologia depende da articulação entre conhecimento tecnológico, pedagógico e de conteúdo — algo que dificilmente se constrói sem apoio e acompanhamento. Também Fullan, M. (2007) reforça que a mudança educativa exige condições organizacionais que sustentem e deem sentido às práticas.
Assim, mais do que disponibilizar ferramentas, parece-me essencial criar condições concretas de apoio: modelos já estruturados, formação prática e situada, e até a existência de mediadores que possam apoiar os docentes no terreno. Caso contrário, a plataforma continuará a ser percecionada como um espaço externo à prática pedagógica, e não como um verdadeiro ecossistema de aprendizagem.
Fica-me, por isso, a sensação de que o maior desafio não está tanto na tecnologia em si, mas na capacidade de a tornar habitável — no sentido de permitir que docentes e estudantes se sintam efetivamente participantes desse espaço digital.
Referências
Garrison, D. R., Anderson, T., & Archer, W. (2000). Critical inquiry in a text‐based environment: Computer conferencing in higher education. The Internet and Higher Education, 2(2–3), 87–105.
Koehler, M. J., & Mishra, P. (2009). What is technological pedagogical content knowledge (TPACK)? Contemporary Issues in Technology and Teacher Education, 9(1), 60–70.
Moreira, J. A., & Horta, M. J. (2020). Educação e ambientes híbridos de aprendizagem: Um processo de inovação sustentada. Revista UFG, 20, e66027.
Salmon, G. (2013). E-moderating: The key to teaching and learning online (3rd ed.). Routledge.
Siemens, G., & Long, P. (2011). Penetrating the fog: Analytics in learning and education. EDUCAUSE Review, 46(5), 30–32.
Vygotsky, L. S. (1978). Mind in society: The development of higher psychological processes. Harvard University Press.
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